Risco de acidente nuclear na Ucrânia supera receio de armas atómicas, diz chefe da AIEA

O Diretor-Geral da AIEA, Rafael Grossi, afirma que o uso de armas nucleares na guerra entre a Rússia e a Ucrânia é “improvável”, enquanto o Irão possui urânio enriquecido a 60%, alertando contra qualquer tentativa de saída do Tratado de Não-Prolifera

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Grossi diz que os combates em torno da central nuclear de Zaporizhzhia deixaram a maior instalação da Europa numa "condição extremamente frágil". / Reuters

O chefe da agência nuclear da ONU afirmou estar mais preocupado com o risco de um acidente nuclear na Ucrânia do que com o possível uso de armas atómicas, destacando a situação frágil na maior central nuclear da Europa.

Numa entrevista publicada na sexta-feira, o Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, disse à estação pública espanhola RTVE que, embora a possibilidade de uso de armas nucleares na guerra da Ucrânia não possa ser totalmente descartada, continua improvável.

“Acredito que a possibilidade de uso de armas nucleares no contexto deste conflito não é muito elevada”, afirmou Grossi. “Portanto, estamos imediatamente mais preocupados com a possibilidade de um acidente nuclear do que com o uso da própria arma nuclear.”

Grossi sublinhou os perigos em torno da Central Nuclear de Zaporizhzhia, que descreveu como “a mais importante central nuclear da Europa”, lembrando que chegou a fornecer 20% da eletricidade da Ucrânia. A central, localizada numa zona de combate e ocupada pela Rússia, continua altamente vulnerável a actividades militares e cortes de energia que poderiam comprometer os sistemas de refrigeração.

“A situação hoje é extremamente frágil. É uma zona de combate”, disse, acrescentando: “Estamos a exercer esta função de observação permanente e de mediação entre ambos os beligerantes para conseguir, por exemplo, cessar-fogos específicos. Já conseguimos negociar quatro com sucesso, que nos permitem realizar, por exemplo, reparações nas linhas de alta tensão que circundam a central, de forma a evitar precisamente situações de emergência radiológica.”

“É uma situação extremamente frágil e volátil que acompanhamos dia a dia”, enfatizou.

Irão detém “quantidade significativa” de urânio enriquecido

Quanto ao Irão, Grossi afirmou que o país continua a deter uma “quantidade significativa” de urânio altamente enriquecido, num contexto de tensões e inspeções suspensas após ataques a instalações nucleares.

“Ainda existe uma quantidade significativa de urânio enriquecido a 60% no Irão, praticamente ao nível necessário para a fabricação de armas nucleares”, disse.

Grossi alertou ainda contra qualquer tentativa iraniana de se retirar do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, afirmando: “Isso só agravaria a situação de tensão que já se vive.”

Respondendo a uma pergunta, o chefe da AIEA afirmou que a agência mantém diálogo com Teerão e outros actores-chave, incluindo os Estados Unidos, para restaurar a monitorização e evitar uma escalada adicional.