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As redes sociais não são suficientes: Por que os protestos já não são o que eram
Muitos movimentos recentes, incluindo o 'Black Lives Matter' e o 'Occupy Wall Street', começaram com força, mas na maioria das vezes não levaram a mudanças duradouras. Vamos analisar os motivos que levaram a isto.
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As redes sociais não são suficientes: Por que os protestos já não são o que eram

O século XXI tem sido uma época de muitos protestos globais.

Com o “Movimento Verde” em 2009, o Irão viveu os maiores protestos desde a revolução de 1979, milhares de pessoas saíram às ruas para exigir a realização de eleições mais honestas.

No Médio Oriente, a “Primavera Árabe” em 2011, teve como objetivo derrubar estados autoritários. Em 2014, o "Movimento Guarda-Chuva" opôs-se ao governo de Hong Kong para exigir transparência e democracia.

Os Estados Unidos também foram o lar de alguns movimentos importantes recentemente, como o “Occupy Wall Street” e o “Black Lives Matter”, que mudaram a forma como pensamos sobre desigualdade e racismo. Nos últimos meses, estudantes nos EUA reuniram-se para protestar contra a guerra em Gaza.

Valeu a pena? Será que o ativismo deu lugar a novas políticas e o mundo é agora um lugar melhor? A resposta é mista.

Resultados mistos

Há sem dúvida movimentos que alcançaram as suas maiores aspirações. A Primavera Árabe mudou fundamentalmente a política nalgumas nações.

Os protestos puseram fim ao governo do Presidente Ben Ali na Tunísia, bem como ao mandato de dois primeiros-ministros egípcios. No outro extremo, os movimentos foram mais fugazes.

Nos EUA, o movimento Occupy Wall Street dominou as manchetes durante anos, mas isso não atenuou a desigualdade económica, nem impediu a ascensão da política nacionalista nos EUA.

Parece que muitos movimentos dos últimos anos seguiram o caminho do Occupy Wall Street. É mais provável que se assemelhem ao Occupy Wall Street do que à Primavera Árabe que derrubou Ben Ali. Surgiram, marcaram uma posição e depois desvaneceram-se.

O poder dos protestos do passado

O motivo é que os protestos de hoje são bastante diferentes do que eram nas gerações anteriores. Tradicionalmente, os movimentos tentavam causar um impacto apelando a um grande grupo de pessoas e, em seguida, usavam esse apoio para criar organizações sociais e políticas que lutavam por mudanças dentro do governo.

Hoje, os movimentos sociais são mais propensos a serem o resultado de conversas online e pequenos grupos de ativistas digitais. O moderno "movimento das redes sociais" é menos provável de possuir os recursos e a estabilidade necessários para lutas sustentadas e vitórias políticas duráveis.

Tenhamos como exemplo o movimento pelos direitos civis americano. Alguns historiadores dizem que os primeiros grupos pelos direitos civis defenderam os direitos dos negros no período após a Guerra Civil, quando os estados do sul impuseram regimes brutais de segregação racial. E também contribuíram para o nascimento da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) em 1909.

Outros atribuem o mérito à geração de Martin Luther King, Jr. e Bayard Rustin nas décadas de 1950 e 1960. Independentemente da forma como olhamos para o movimento dos Direitos Civis, reconhecemos que uma grande comunidade se juntou para criar organizações políticas capazes de organizar protestos, fazer lobby junto do governo e intentar acções judiciais.

A NAACP recolheu milhões de dólares dos seus apoiantes, abriu centenas de filiais e lutou incansavelmente contra a segregação nos tribunais. É fácil entender como décadas de esforço resultaram em vitórias massivas, como a Lei dos Direitos Civis de 1964, que pôs fim ao racismo oficial nos Estados Unidos.

Comparando com o presente

Podemos comparar o movimento pelos direitos civis do passado com o mais conhecido movimento de justiça racial de hoje, o Black Lives Matter (BLM). Fundado em 2014, o BLM tornou-se um grito de guerra contra o racismo nos Estados Unidos.

Após o assassínio de George Floyd às mãos de agentes da polícia em 2020, os organizadores do BLM reuniram milhões de pessoas para se oporem à violência policial e ao racismo. Ao contrário dos anteriores movimentos pelos direitos civis, o BLM não foi liderado por uma grande coligação de cidadãos negros e seus aliados brancos.

Na verdade, o BLM surgiu no Twitter. Três ativistas, Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, lançaram o termo "Black Lives Matter" em espaços online, relacionando-o com o assassínio de cidadãos negros americanos, como Michael Brown e Sandra Bland, o que trouxe muita atenção para este pequeno grupo de ativistas.

Quando o BLM começou a ganhar popularidade, foram criadas ramificações locais, mas elas eram pequenas e não operavam como grupos de defesa ou organizações de lobby registadas.

De forma não surpreendente, os académicos começaram a entender que o impacto do BLM foi principalmente cultural. Com os meus colaboradores académicos, publiquei um artigo nas Atas da Academia Nacional de Ciências que mostraram que as discussões sobre antirracismo aumentaram após as ondas de protestos do BLM.

Em contrapartida, os académicos concluíram que os protestos do BLM não levaram à diminuição do financiamento da polícia. Uma análise de Mathis Ebbinghaus, Nathan Bailey e Jacob Rubel publicada na revista de sociologia “Social Problems” mostrou que na verdade, muitas cidades tiveram um aumento nos orçamentos da polícia, o que foi interpretado como um sinal de retaliação.

Podemos perguntar se hoje em dia estamos perante uma dinâmica semelhante nos Estados Unidos e noutros países, onde as pessoas têm protestado contra a guerra em Gaza. Assim como o BLM, estes protestos espalharam-se rapidamente porque foram amplificados pelas redes sociais, e é difícil ver que tenham existido mudanças na política do governo decorrentes destas ações.

Suspeito que o impacto limitado do movimento pode-se atribuir ao facto de que ele carece de uma liderança centralizada que mobilize dinheiro e votos em apoio à sua causa e também porque depende da energia das redes sociais.

Os protestos em Gaza também se entrelaçaram na política interna dos EUA à medida que foram desvirtuados por alegações de antissemitismo nos campus universitários e repressões administrativas a ativistas estudantes e docentes.

Infelizmente, não há discussão suficiente sobre a crise humanitária que emerge da guerra.

Ficar aquém

O BLM não é um caso isolado. Já houve muitos movimentos no século XXI, como a Primavera Árabe ou o Movimento Verde no Irão, que começaram como ideias cheias de esperança na internet e incendiaram-se nas redes sociais.

‘O futuro das ações de protesto depende da capacidade dos ativistas para responder a este ambiente em rápida mudança e inovar novas estratégias.’

Estes movimentos foram poderosos e inspiraram milhões. Mas muitas vezes ficaram muito aquém do que os seus apoiantes mais otimistas imaginavam. Uma das principais razões é que as pessoas sobrestimam as redes sociais e subestimam a necessidade de organização e de estratégia a longo prazo.

O Twitter pode ajudá-lo a chegar instantaneamente a um milhão de pessoas e a convocá-las para um protesto num dia, mas não é a ferramenta ideal para construir uma comunidade de pessoas que farão o trabalho ingrato de pressionar o Congresso, registar os eleitores e fazer com que as coisas sejam feitas a longo prazo.

À medida que o tempo passa e analisamos o legado destes movimentos, podemos apreciar as suas vitórias e trabalhar para corrigir as suas fraquezas.

Podemos procurar entender a instabilidade dos movimentos baseados em redes sociais e também tentar entender como os governos reagem a este tipo de protestos.

O governo iraniano, por exemplo, continuou a impedir os movimentos baseados na internet aumentando o seu investimento na vigilância digital. O futuro das ações de protesto depende da capacidade dos ativistas para responder a este ambiente em rápida mudança e inovar novas estratégias.