Ucrânia, Rússia e EUA reúnem-se em Abu Dhabi para discutir a paz

Negociadores de Kiev, Moscovo e Washington reúnem-se em Abu Dhabi para dois dias de negociações sobre o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

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Pessoas olham para um prédio de apartamentos danificado após o ataque de mísseis e drones da Rússia em Kiev, Ucrânia, terça-feira, 03/02/2026. / AP

Negociadores da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos deveriam reunir-se em Abu Dhabi na quarta-feira, procurando fazer avançar negociações difíceis sobre como pôr fim à guerra de quatro anos.

Várias rondas de diplomacia entre as partes falharam até agora em alcançar um acordo para terminar o conflito mais mortífero da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, que começou em fevereiro de 2022.

Um massivo ataque russo com drones e mísseis na véspera das conversações, que atingiu a rede energética da Ucrânia e deixou sem eletricidade e aquecimento muitas zonas, com temperaturas muito abaixo de zero, ameaçou ensombrar quaisquer hipóteses de progresso na capital dos Emirados.

“Cada ataque russo deste tipo confirma que as atitudes em Moscovo não mudaram: continuam a apostar na guerra e na destruição da Ucrânia e não levam a diplomacia a sério”, afirmou na terça-feira o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

“O trabalho da nossa equipa de negociação será ajustado em conformidade”, acrescentou, sem dar mais pormenores.

O principal ponto de discórdia é o destino a longo prazo do território no leste da Ucrânia.

Moscovo exige que Kiev retire as suas tropas de vastas áreas do Donbass, incluindo cidades fortemente fortificadas situadas sobre enormes recursos naturais, como condição prévia para qualquer acordo.

Pretende também o reconhecimento internacional de que as terras ocupadas durante a invasão pertencem à Rússia.

Kiev afirmou que o conflito deveria ser congelado ao longo da actual linha da frente e rejeitou uma retirada unilateral das forças.

As conversações — previstas para decorrer de quarta a quinta-feira — foram adiadas em relação ao fim de semana passado devido ao que o Kremlin classificou como problemas de agenda entre as três partes.

“Preparar-se para o pior”

A delegação ucraniana será chefiada pelo presidente do Conselho de Segurança, Rustem Umerov, um negociador astuto elogiado por colegas como autor de “milagres” diplomáticos.

O principal negociador da Rússia será o diretor dos serviços de informações militares, Igor Kostyukov, um oficial naval de carreira sancionado no Ocidente pelo seu papel na guerra da Ucrânia.

Numa ronda anterior de negociações em Abu Dhabi, no mês passado, a equipa dos EUA foi liderada pelo omnipresente enviado do Presidente Donald Trump, Steve Witkoff.

A Rússia, que ocupa cerca de 20 por cento do território do país vizinho, ameaçou tomar o resto da região de Donetsk caso as negociações falhem.

A Ucrânia avisou que ceder território encorajaria Moscovo e afirmou que não assinará um acordo que não impeça a Rússia de voltar a invadir.

Kiev ainda controla cerca de um quinto da região de Donetsk.

Ao ritmo actual do avanço russo, o exército de Moscovo levaria mais 18 meses a conquistá-la por completo, segundo uma análise da AFP — mas as áreas que permanecem sob controlo ucraniano incluem importantes centros urbanos fortemente fortificados.

A Rússia reclama também como suas as regiões de Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, e controla parcelas de território em pelo menos outras três regiões ucranianas no leste.

A maioria da população ucraniana é contra um acordo que entregue território a Moscovo em troca da paz, de acordo com sondagens de opinião.

No campo de batalha, a Rússia tem vindo a registar avanços a um custo humano imenso, na esperança de conseguir resistir mais tempo e superar em poder de fogo o exército ucraniano, já sobrecarregado.

Zelensky tem pressionado os seus aliados ocidentais a aumentarem o fornecimento de armas e a intensificarem a pressão económica e política sobre o Kremlin para travar a invasão.

Centenas de milhares de pessoas ficaram este ano sem aquecimento e eletricidade na capital ucraniana, após ataques russos em larga escala terem danificado gravemente a rede energética de Kiev.

Após a primeira ronda de conversações mediadas pelos EUA em Abu Dhabi no mês passado, muitos ucranianos duvidavam que fosse possível alcançar um acordo com Moscovo.

“Penso que isto é apenas um espetáculo para o público”, disse à AFP Petro, um residente de Kiev.

“Temos de nos preparar para o pior e esperar o melhor.”