Onde se esconde o vírus Ébola? Cientistas procuram a sua origem há anos
SAÚDE & BEM-ESTAR
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Onde se esconde o vírus Ébola? Cientistas procuram a sua origem há anosHá cinco décadas que os cientistas questionam qual o animal que é responsável pelo surto do vírus Ébola e ainda não têm certeza.
Cientistas investigam origem do vírus ébola

Desde que o vírus Ébola foi identificado pela primeira vez como uma doença zoonótica, em 1976, os cientistas têm tentado descobrir a sua fonte natural. Com esse objetivo, foram estudados morcegos, roedores e muitas outras espécies animais; no entanto, o principal reservatório que transporta o vírus de forma contínua na natureza ainda não foi identificado de forma conclusiva.

Enquanto as autoridades de saúde da República Democrática do Congo (RDC), onde morreram 149 pessoas, e do Uganda, onde surgiram novos casos, tentam controlar os mais recentes surtos de Ébola, os investigadores voltam a concentrar-se na questão de como o vírus chega aos seres humanos e a outros animais. Reunimos para si o artigo preparado por Saad Hasan para a TRT World, com base em consultas a especialistas sobre este tema.

O professor Alexander Bukreyev, da Faculdade de Medicina da Universidade do Texas, afirma que, para compreender este problema, é necessário analisar o processo de descoberta do vírus Marburg, pertencente à mesma família de filovírus que o Ébola. O vírus Marburg foi identificado, em 2007–2008, em morcegos-da-fruta egípcios que viviam na mina de ouro de Kitaka, no Uganda. Como os investigadores recolheram amostras pouco tempo depois do surto, conseguiram identificar a fonte do vírus.

Segundo Bukreyev, em declarações à TRT World, o vírus Marburg não permanece de forma permanente nos morcegos. Os morcegos infetados tornam-se portadores durante algum tempo, mas acabam por eliminar completamente a infeção. Por esse motivo, embora o vírus circule dentro da comunidade de morcegos, não permanece durante longos períodos num único animal. Os cientistas acreditam que o Ébola também “brinca às escondidas” na natureza de forma semelhante.

De acordo com os especialistas, cerca de 60% de todas as doenças infeciosas têm origem em animais selvagens. No entanto, grande parte das condições ambientais e ecológicas que permitem o surgimento dessas doenças zoonóticas ainda não é totalmente conhecida.

Identificar o animal de origem é de importância crítica para a prevenção de surtos. O biólogo Patrick R. Stephens, da Universidade Estadual de Oklahoma, salienta que, se as espécies portadoras do vírus fossem conhecidas com precisão, seria possível mapear os seus habitats e prever com maior exatidão as áreas de potencial disseminação. Dessa forma, poderiam ser desenvolvidos sistemas de alerta precoce para futuros surtos de Ébola.

No passado, já houve exemplos de sucesso semelhantes. Em 1963, por exemplo, foi identificado que o reservatório natural do vírus Machupo, responsável por uma febre hemorrágica surgida na Bolívia, era uma espécie local de rato. Com a identificação da fonte, a propagação do vírus foi em grande medida controlada.

O escritor David Quammen, no seu livro Spillover, dedicado às doenças zoonóticas, afirmou: “Impedir a propagação do vírus acabou por eliminar o vírus de facto.”

Para os cientistas, o padrão-ouro consiste em isolar o vírus vivo a partir do seu reservatório natural e cultivá‑lo num laboratório. Contudo, até ao momento, esse objetivo não foi alcançado nas investigações sobre o Ébola. Embora tenham sido encontrados anticorpos e material genético do Ébola em várias espécies de morcegos e noutros animais, esses dados não são suficientes para comprovar uma fonte permanente do vírus. Os anticorpos apenas indicam que o animal pode ter sido exposto ao vírus no passado.

Stephens explica esta situação com o exemplo da constipação comum nos seres humanos: numa amostra recolhida num dia aleatório da vida de uma pessoa, o vírus pode não ser detetado. O mesmo acontece com os animais selvagens. Além disso, os investigadores dispõem de muito pouca informação sobre a maioria das espécies.

Nos últimos 50 anos, surtos de Ébola em países como a RDC (República Democrática do Congo), Gabão, Serra Leoa, Libéria, Sudão e Uganda causaram a morte de milhares de pessoas. Apesar disso, os investigadores consideram que ainda não foi analisado um número suficiente de animais para identificar o reservatório natural do vírus.

Segundo Stephens, das cerca de 900 espécies de mamíferos conhecidas em África, apenas cerca de 350 foram amostradas. O número de espécies infetadas com vírus vivo em laboratório é ainda muito menor. Esse tipo de estudos permite aos investigadores compreender onde o vírus se esconde no corpo do animal e quanto tempo após a infeção se torna detetável.

Stephens afirmou: “O vírus é provavelmente bastante raro mesmo nas espécies que infeta. Por exemplo, na maioria das espécies em que o detetámos, por vezes apenas dois ou três indivíduos deram positivo entre centenas de amostras.”

Acredita-se que surtos passados, como o de 2014 que causou mais de 11 mil mortes na Serra Leoa, Libéria e Guiné, também tenham tido origem em animais selvagens. Foi determinado que o primeiro caso ocorreu numa criança de dois anos que poderá ter tido contacto com morcegos. Outros surtos foram associados ao consumo de carne de chimpanzés mortos e de outros primatas.

Embora as investigações sobre o Ébola tenham abrangido até agora apenas uma pequena fração da vida selvagem, chama a atenção o facto de não ter sido encontrado qualquer vestígio de vírus vivo em centenas de amostras cuidadosamente recolhidas nas florestas da RDC e noutras regiões, e enviadas para laboratórios de alta tecnologia de instituições como os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Os investigadores sugerem que uma das razões para a não deteção do vírus vivo pode ser o facto de restos do vírus permanecerem ocultos nos tecidos dos animais após a infeção. Fatores como stress, escassez de alimentos ou alterações ambientais podem levar ao reaparecimento dessas infeções latentes.

No entanto, recolher amostras de milhares de animais selvagens em diferentes períodos é um processo extremamente dispendioso e demorado. Segundo Stephens, uma das principais razões pelas quais a fonte natural do Ébola ainda não foi identificada é a falta de financiamento adequado. Os especialistas sublinham que, sem estudos de campo mais abrangentes, será difícil revelar o verdadeiro local onde o vírus se esconde na natureza.


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