À medida que aumentam as tensões entre a Europa e os Estados Unidos em torno da Gronelândia, começam a surgir no continente os primeiros sinais de uma recalibração estratégica — que inclui uma aproximação cautelosa da Europa à Rússia, mesmo com a guerra na Ucrânia a arrastar-se.
No seio da União Europeia, altos responsáveis debatem com prudência se poderá chegar o momento de reabrir canais diplomáticos com o Presidente russo, Vladimir Putin, uma perspetiva que teria sido politicamente impensável há apenas um ano.
A discussão expôs divisões profundas dentro do bloco, com os Estados da linha da frente a alertarem contra qualquer envolvimento prematuro ou mal ponderado com Moscovo.
A Polónia surgiu como uma das vozes mais firmes contra essa ideia. Falando em Bruxelas, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radoslaw Sikorski, advertiu na sexta-feira que, caso o diálogo com a Rússia venha algum dia a ser retomado, deverá ser conduzido estritamente através das instituições estabelecidas da UE, e não por enviados ad hoc ou iniciativas nacionais isoladas.
“A UE já tem a sua voz. Essa voz é Kaja Kallas”, afirmou Sikorski, referindo-se à chefe da diplomacia europeia. O ministro alertou para o risco de nomear um “interlocutor fraco”, que poderia diluir a pressão coletiva sobre o Kremlin ou permitir a Moscovo explorar divisões no seio da Europa.
O debate foi desencadeado depois de o Presidente francês, Emmanuel Macron, e a Primeira-Ministra italiana, Giorgia Meloni, terem sugerido a possibilidade de restaurar canais diretos de comunicação com Moscovo, quase quatro anos após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.
Com o conflito bloqueado num impasse dispendioso, alguns responsáveis europeus defendem que a UE deve, pelo menos, preparar-se para uma eventual diplomacia — mesmo que as conversações permaneçam distantes e politicamente tóxicas.
“Chegará a hora de conversar”
À porta fechada, diplomatas discutiram a possibilidade de nomear um enviado especial para gerir contactos com Moscovo, estando o nome do antigo primeiro-ministro italiano Mario Draghi entre os referidos em notícias da comunicação social. No entanto, nenhuma proposta formal foi ainda apresentada.
Para Varsóvia e outras capitais da Europa de Leste, contudo, o momento não podia ser mais inadequado. Sikorski sublinhou que qualquer futura diplomacia deve reforçar, e não enfraquecer, a política actual da UE. “Não podemos cair em truques do Kremlin”, disse. “Chegará o momento de conversar. Mas não é hoje.”
Um ceticismo semelhante foi manifestado noutras paragens. A administração greco-cipriota, que detém actualmente a presidência rotativa do Conselho da UE, alertou para o risco de “enviar o sinal errado” enquanto mísseis russos continuam a atingir cidades ucranianas.
A Comissão Europeia ecoou esse entendimento, afirmando que, embora a diplomacia nunca deva ser excluída, as condições actuais tornam qualquer contacto com Putin “impossível por agora”.
Ainda assim, Moscovo tomou nota da mudança de tom. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou na sexta-feira que os apelos de alguns líderes europeus para retomar o diálogo são “positivos”, acrescentando que, se refletirem uma revisão estratégica mais ampla na Europa, representam “uma evolução positiva” das posições europeias.
O debate emergente sobre a Rússia desenrola-se num contexto de uma crise ainda mais imediata a agitar as relações transatlânticas: a Gronelândia.
A insistência renovada do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que Washington “precisa da Gronelândia” — e a sua recusa em excluir o uso da força militar para anexar o território semiautónomo dinamarquês — chocou os aliados europeus.
A questão ganhou nova urgência depois de conversações realizadas esta semana em Washington entre responsáveis dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Gronelândia não terem conseguido resolver divergências fundamentais. Pouco depois, Alemanha, França, Suécia e Noruega anunciaram planos para destacar uma missão militar conjunta para a Gronelândia, citando crescentes preocupações de segurança no Ártico.












